sábado, 31 de julho de 2010

O Retorno ao Parque Estadual Sete Passagens - PESP (Miguel Calmon-BA)

Depois de muita discussão, briga de facas, kickboxing e outros malabarismos para decidir quem teria vaga garantida na concorrida viagem, um ano e quinze dias após a primeira viagem dos Kalangos de Muxila (Uma Viagem Muito Louca! Parte I) o grupo retornou ao Parque Estadual Sete Passagem - PESP, em Miguel Calmon/BA.
Uma das características do grupo Kalangos de Muxila é a capacidade de agregar em sua volta um grande número de amigos. Nesta viagem não foi diferente, e o “Clube do Bolinha” cada vez faz mais jus à seu apelido. Assim, dentre membros efetivos, agregados e convidados foram:


Rompendo a tradição, praticamente não houve atraso no horário de saída, apesar de na noite anterior termos muito trabalho para limpar o estrume que perfumava nosso transporte, usualmente utilizado como transporte de bovinos. Ben10 teve que ir de moto, duas horas após nossa partida, devido a prova de um concurso, na qual nosso amigo “matou-a-pau”.
Ao passar pela Serra do Tombador, Big-Foot pediu arreio, pois sua cara-pálida já tinha ficado de todas as cores do arco-íris, predominando o amarelo e azul, pois estava bastante enjoado. Deve ser pelo estado de graça em que sua esposa se encontra. Grávida de 12 semanas, Big-Foot também se sente nas mesmas condições...
Ao chegar à acolhedora Miguel Calmon paramos para descansar, comprar algumas frutas na feira livre e para pegar nosso velho amigo Pankas, que fez das tripas coração para estar conosco nessa aventura, aproveitando assim, a oportunidade de comemorar seu aniversário junto aos amigos e família. E nada melhor que um camping para isso. Kalangada reunida, andando em fila indiana na feira livre, entre uma barraca e outra, despertou vários olhares estranhos e um comentário singelo de uma senhora, no mínimo cômico: “Vixe! ' Qué ' homi!”
Ao chegar ao PESP, fomos bem recebidos pelos guarda-parques, que nos orientaram sobre as normas do PESP e explanaram sobre preservação e educação ambiental. Michel Nilson foi o único reconhecido da turma, pela guarda-parque Marlúsia, carinhosamente chamado de “Mel”. Nilsão logo se assanhou se perguntando: “Que mistura dá Mel com Chocolate?”
No Parque Estadual Sete Passagens existem nascentes dos rios Paraguaçu e Itapicuru, formando 14 lindas cachoeiras em área serrana e de vegetação extremamente diversificada. Sua fauna e flora possuem inúmeros exemplares endêmicos e em extinção. Na sede há uma área de reabilitação de animais apreendidos por órgãos fiscalizadores, como o IBAMA. Alguns desses animais, devido a dependência, ficam aos arredores da sede, como um casal de veados, os famosos periquitos e uma rolinha (muitos no grupo notaram sua ausência nessa viagem).

Saímos por volta das 12:30 rumo ao Vale do Dandá, depois de comermos o delicioso “feijãozinho com arroz” beeeeeem gelado feito por nossa querida Capoeirista e futura mãe de “Little-Foot”. Pelo horário, não esperávamos encontrar tanta cerração, tampouco tanto frio, que julgamos beirar os 13 graus. A sensação térmica, devido aos fortes ventos e à chuva constante, certamente ficará gravada em nossa memória, até porque alguns já tinham suas extremidades dormentes. Mijar era praticamente impossível, a menos se se tivesse uma lupa ou uma pinça, ou se entendêssemos braile (com exceção talvez para Gladistone, reza a lenda...).
A umidade constante faz com que a água mine na trilha, tornando-a um ambiente propício à proliferação de limos e musgos. Essa combinação rendeu alguns tombos e tantos outros escorregões. O Careca, por exemplo, precisou de ajuda para levantar-se. Pavão, pouco vaidoso, utilizando-se de pedras encontradas na trilha, usou o frio como pretexto pra fazer uma malhação.
Percorremos áreas de vegetação rupestre e capões bastante densos e exuberantes. Num deles, inclusive, estão sendo realizados estudos científicos.
Infelizmente, ao chegar ao Vale do Dandá, lá do céu, Raulzito, Cazuza, Bob Marley, Jimi Hendrix e São Pedro pareciam não querer largar o “cigarrinho do demônio”, pois a neblina não nos deixava enxergar a mais que algumas dezenas de metros, nos privando de uma das magníficas visões do paraíso possíveis no PESP.
Estávamos em um ponto a cerca de 1.100 metros de altitude e centenas de metros de altura. Reza a lenda que qualquer um que jogue seu boné precipício abaixo o terá arremessado de volta. Big-Foot-Too se prontificou a testar, tendo seu boné arremessado ao longe, pela força do vento. Galego, malandro, pegou o “bonezinho” de Pirulito, amassou-o e o arremessou penhasco abaixo. Infelizmente, o fenômeno não se repetiu.

Parcialmente frustradas as expectativas de rever o Vale do Dandá, rumamos em mais uma trilha, agora em direção à Cachoeira do Jajai, onde alguns se banharam e outros apenas contemplaram as beldades semi-nuas na gélida queda d ' água. O frio faz encolher algumas partes íntimas, mas infelizmente não faz diminuir o excesso de peso, evidenciando que a kalangada precisa urgentemente de um regime. Mas isso não intimidou Michel Nilson, que nos surpreendeu com uma cuequinha no mínimo curiosa. Dentre os que se banharam na cachoeira, alguns (até mesmo o mais vaidoso) se recusaram a tomar banho de chuveiro, numa tentativa de esquivar-se do frio.
À noite, o frio que beirava ao congelamento, e a neblina e a chuva limitava nossas opções. Mas foi uma noite regada ao som dos violões de Ben10, Erick e Narciso e muitas brincadeiras no estilo “improviso” ocuparam essas mentes ociosas, porém cheias de criatividade. Dentre as brincadeiras, destacou-se as mímicas para adivinhação, com as pérolas de Pirulito, que levantou a suspeita que seu cabeção não passa de um ornamento (por exemplo, fazendo movimento circular sobre sua cabeça para representar o filme “Central do Brasil” [sic!]).
Quase todos foram dormir antes das 22:00, pois no dia seguinte tínhamos como objetivo maior provar àquele guia da viagem passada que somos capazes. Os Kalangos rumariam a uma das mais distantes das cachoeiras e uma das mais belas: a cachoeira do Coração (esse nome é original, não foi uma homenagem ao nosso amigo Joka).
Pela manhã, viu-se o estrago provocado pela chuva nas barracas. Algumas viraram verdadeiros barcos. Quem levou colchão de espuma teve mais sorte, pois estes absorveram toda a água que inundava a barraca...

Ben10, faminto e revoltado porque havia perdido seu lanche na entrada do parque no dia anterior, não cansava de gritar para outro grupo que havia chegado depois de nós: “ O povo acha e não vem devolver a merenda dos outros!!!”
Lamentavelmente, as adversidades climáticas nos obrigaram a abortar nossos magníficos planos de desbravamento do PESP. Mas mentes criativas borbulham em momentos de ócio forçado. Assim, na manhã de domingo rolou mais voz e violão, mais “improviso”, muitas fotos em poses ridículas e até uma coreografia esquisita (uma mistura do Waka Waka, dança do Canguru, da Batina e da Jega do tio Bano...)

Na volta, Miguel Calmon viu-se invadida com os gritos da célebre frase vocálica: "Óia o aió aí, óia!", já ensaiados no dia anterior na feira livre da cidade, chamando a atenção da senhora que notou a quantidade exagerada de machos “alfa”.
Já chegando, Big-Foot repetiu a proeza da ida, resolvendo enjoar novamente. Resistiu bravamente até não conseguir segurar mais os frutos ingeridos no PESP, regurgitando-os aos pés de Pavão.

(...)

Apesar da frustração dos planos iniciais devido às adversidades climáticas (aprendemos que o período de inverno não é o mais propício para acampar), sempre vale à pena visitar o Parque Estadual Sete Passagens, não só pela sua importância ecológica, mas também e principalmente pela sua beleza paisagística. Os Kalangos de Muxila demonstraram mais uma vez que é possível turismo com custos mínimos e diversão ao máximo e que não há situação adversa que afaste nossa capacidade de divertimento recheado com informação. Esse é o “espirito dos Kalangos”.
E no mais, Tchau!
P.S.: A reunião para definição de estratégias políticas ficou para depois...


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Cachoeira do Ferro Doido, Morrão e Vila do Ventura (Morro do Chapéu - BA)

Na volta da Viagem Muito Louca – Parte III, não pudemos nos conter em contar a todos o quanto tinha sido “massa”. Infelizmente percebemos que nosso querido amigo Big-Foot chorava pelos cantos após contarmos repetitivamente o quão boa tinha sido a viagem. Porém, foi frustrante não termos ido até o Morrão, Buraco do Possidônio, Cachoeira do Ferro Doido e Vila Fantasma do Ventura. Palavras dele na comunidade Os Viajantes: "Confesso que estou muito triste porque, devido à minha condição de escravo proletário, não pude ir à Viagem Muito Louca – Parte III (…) Confesso que estou ansioso para ouvir as loucas histórias dos nossos amigos Viajantes, nessa nova aventura, que certamente dará muita resenha... Enfim, confesso que eles devem estar si divertindo pakas, e eu não!”. Cá entre nós, confessamos que ficamos com muita pena dele!
Logo após o “I Sarau do InForme”, inconformados, indignados, revoltados, e demais sinônimos, resolvemos concluir o roteiro do que seria “Uma Viagem Muito Louca – Parte III”, percebendo o interesse coletivo em visitar tais locais. Mas aí surgiam problemas: Quando? Como? Quem?
Dessa vez, sem muita organização, conversa fiadas, sem listas, orçamentos, bobagens, sem muito planejamento e sem promiscuidades pelo MSN, decidimos, em um sábado a noite (16.01.10), que completaríamos o roteiro supramencionado logo que o Sol aparecesse no domingo (17.01.10).
Sábado, 16 de janeiro de 2010, 20h30:
_ E aí, vamos completar a viagem amanhã?
_ Vamos!
_ Pronto! Amanhã, 06h00, todo mundo na casa de Edinho.
E assim foi. Como não poderia deixar de acontecer, tivemos um pequeno atraso devido alguns dorminhocos que teimaram em pedir mais “5 minutinhos”. O destino? Município de Morro do Chapéu: Cachoeira do Ferro Doido, Vila Fantasma do Ventura e Morrão, esse último acrescentado minutos antes da saída.
O Clube do Bolinha deixou de ser tão “Bolinha” assim, recebendo pela primeira vez, a presença de “Luluzinhas”: Clêdiane, Núbia, Edna – essa última prometera a Big-Foot (que isso fique entre a gente) surrá-lo com golpes de capoeira caso ele não a levasse pra próxima viagem – e, diretamente do Piauí: Raíssa.
O grupo Kalangos de Muxila estava incompleto, mas contrariando todas as leis, foi a viagem com maior número de participantes:
Clêdiane: Keu ou Keuzinha (só para Edinho);
Edna: Ninha, A Capoerista;
Edson D’Angelo (Filho): Xobas, Idiosmar ou Edinho;
Edson D’Angelo (Pai): Careca;
Eduardo: Dú;
Erick: Big-Foot;
Fagner: Bugga ou Abelardo;
Jailton Jr.: Júnior, Nego D’Água;
Joziel: Joka-Tigre, Joka Jackson ou O Dominador;
Langston: Languinho ou Mondragon;
Lucas: Cabeção ou Pirulito;
Lúcio: O Gordinho (por enquanto, segundo ele);
Marcelo Carneiro: Pankas, Boer ou Tony Ramos;
Nilson: Negão, O Salvador ou Michael Nilson;
Núbia: Binha, A Buxuda;
Raíssa: Bilaka;
Vinícius: Galego, Menininho da Mamãe ou Riquinho.
Mantendo as tradições, tivemos problemas com o transporte, já que nossa InVenenada, depois de supervalorizada pela fama repentina, foi lucrosamente vendida. Para nossa tristeza, ela pertence a outro nesse momento. Mas a determinação foi maior que todos os obstáculos e conseguimos os 4 carros necessários.
Depois de estabelecidos os transportes (um Uno, aquele mesmo que nos salvou na primeira viagem; um Monza, um Celta rebaixado que nos trouxe certos problemas e um velho, porém valente, Corcel II), seguimos viagem em direção ao Morro do Chapéu, isto, é claro, depois de um delicioso café da manhã na casa de Xobas preparado pelo Careca.
Seguimos em direção à Cidade das Bromélias em busca de aventura, mas antes distribuímos o peso entre os carros (um carro não aguentaria com Big-foot e Pankas juntos). Chegamos ao Morro do Chapéu por volta das 07h20 e seguimos em direção ao Morrão, um dos pontos mais altos de toda a região, situado a 1.293m de altitude, cerca de 250m acima do nível topográfico da sede do município; possui uma grande diversificação da flora e oferece uma bela vista panorâmica da região. O acesso se dá a partir de Morro do Chapéu pela estrada asfaltada para o Bonito (1 Km), entrada à direita seguindo por estrada secundária (4,6 Km), desvio à direita com percurso de 2,5 Km.

Chegando à base do Morrão, o Careca, mais experiente entre nós, parecia pinto no lixo de tão feliz, sentia-se uma criança e desde então já nos deixava preocupados. Seguindo Morrão acima, cerca de 15 minutos depois, iniciou-se uma sessão de fotos que parecia não mais ter fim, estendendo nossa permanência por lá em pouco mais de meia hora. Poderíamos não ter ficado tanto, caso Big-Foot (que deve terminar sua graduação em Geografia esse semestre), não tivesse começado com suas aulas de campo, enfatizando que as marcas presentes nas rochas provavam que ali havia há alguns milhões de anos um delta de rios entrelaçados e que aquelas marcas nada mais eram do que o movimento das ondas. Em meio aquela aula, ouvia-se alguns cochichando preocupados, achando que Erick tinha, tipo, dado “um tapa na pantera”, porém não, ele estava certo, e tudo o que foi falado é provado conforme estudos e artigos publicados em meio acadêmico.

Depois de descermos o Morrão e o Careca sumir novamente, seguimos em direção à cidade em busca de mantimentos para o dia que seria longo. Lá percebemos que o pneu do Uno do Negão estava meio que “escapando ar”, e enquanto o mesmo seguia para a borracharia, o restante seguiu para os supermercados e padarias da cidade. Após as compras, o destino era o Restaurante do Dega, por onde, diga-se de passagem, anos atrás passou o imortal Raul Seixas e muitos outros famosos. Na chegada, Joka Jackson e Galego, Xobas e Du, travaram um emocionante desafio de bilhar, onde, depois de muitas bolas acertadas e tantas outras “cegadas”, Xobas e Dú saíram vitoriosos “tirando sarro”, é claro, dos perdedores.
Tendo a Cachoeira do Ferro Doido como próxima parada, partimos em direção a mesma, onde, para nossa sorte corria muita água, deixando-a linda e exuberante. Depois de maaais uma sessão de fotos e gritos pra quem encostasse arriscadamente na ponta da rocha, decidimos seguir a trilha até o poço.
Na descida, Núbia, por estar grávida, não desceu conosco, ficando Keu com a responsabilidade de cuidar dela. É válido lembrar que as duas suaram frio pouco depois de descermos, já que algumas outras pessoas chegaram à Cachoeira, e as duas, corajosas que são, de imediato se esconderam atrás de uma grande rocha (por essas e outras não levávamos mulheres). Foi também na descida que ouvimos pela primeira vez a voz da mais nova turista dentre nós: Bilaka; que devido a uma leve, porém espantosa escorregada pediu ajuda desesperadamente. Além disso, percebemos que A Capoeirista tinha muito mais força que seu companheiro Erick, que já há tempos colocava as “tripas” pra fora.
Para nossa surpresa, a trilha era mais complicada do que esperávamos, mas como já é de nossa estirpe, vencemos todos os obstáculos. Tudo bem que com alguns pequenos arranhões e sustos. O certo é que nada do que passamos sequer chegou perto da felicidade ao encontrarmos a mais bela de todas as cachoeiras já exploradas pelos Kalangos de Muxila. Com toda certeza aquela era a mais bela, mais incrível, e mais gelada de todas. Mesmo com a água muito gelada, não resistimos e tomamos banho por um bom tempo.

Cachoeira do Ferro Doido - Situada a cerca de 500m da BA-052, oferece um espetáculo cênico de rara beleza de um vale com desnível de cerca de 90m. O termo "Ferro Doido" foi criado por garimpeiros de diamante para indicar a dificuldade de trabalhar na área face à presença de grandes blocos de arenito sobre o cascalho. A partir de Morro do Chapéu, acesso pela BA-052 (18km), até a ponte sobre o rio Ferro Doido.
Depois de um tempo, lembramos da Buxuda  e de Keu, e resolvemos voltar pra socorrê-las. Pegamos a trilha de volta e antes que chegássemos ao topo, ouvimos Dú gritar desesperadamente de cansaço milhares de vezes, por alguns momentos chegamos a pensar que o “coitado” não conseguiria. Contudo, chegando ao topo, nos deparamos com uma incomparável “hidromassagem” natural. Após alguns minutos de descanso e hidromassagem, Dú que se mostrava muito cansado, decidiu tirar a camisa perto da corredeira. Não foi preciso mais que um minuto para que a camisa desaparecesse e o mesmo continuasse a viagem meio que “desnudo”. Sorte dele que o Nego D’água tinha levado uma camisa de reserva. De lá seguimos para a Vila do Ventura. Infelizmente, o Corcel encontrava-se com a bateria descarregada, e mais infeliz ainda era a presença apenas de Dú, Galego, Keu, Joca, Pirulito, Careca e Xobas, os únicos que relembraram e/ou viveram pela primeira vez o que é empurrar um carro, revivendo os tempos da InVenenada; pois os outros já tinham seguido viagem por achar que estava tudo bem com Corcel.
Carro empurrado, problema resolvido, seguimos rumo à Vila do Ventura.


VILA DO VENTURA – Garimpeiros foragidos do município de Lençóis, por volta de 1840, se abrigam nas grotas da fazenda do Cel. Porfírio Pereira, próximo a uma cachoeira (hoje faz. Várzea da Cobra). Um dos garimpeiros chamava-se Ventura, logo descobriram diamante e carbonato, instalaram um pequeno corte de garimpo, sob proteção do Cel. Porfírio e passaram a vender as pedras na cidade de Lençóis, tendo sido o Ventura (garimpeiro) responsável pela venda dos primeiros diamantes, o nome “VENTURA” ficou sendo a referência do local de onde procediam os diamantes, logo em toda a região das lavras este Ventura ficou sendo comentado e assim muitos outros garimpeiros começam a povoar as terras do novo Ventura. Sabe-se também que antes do garimpo ser instalado no Ventura, ali já existia algumas casas de enchimento. Entre 1840 –1864, acontece a boa fase de crescimento, edificações e comércio promissor. Logo, a pequena vila entra em decadência, por ocasião da Guerra do Paraguai, pois quase todos os homens foram recrutados para a mesma. Passando a guerra, nova fase se instala e a vila volta a crescer, e nas três primeiras décadas do século passado acontece o seu apogeu.O distrito de Ventura foi criado pela Lei Estadual nº 680 de 27 de agosto de 1906, nesta vila existia um forte comércio instalado na Praça Comercial (hoje praça Cel. Dias Coelho), duas escolas - uma estadual e outra municipal e alguns professores particulares, ensinava-se inclusive a língua portuguesa e a francesa – Agencia do Correio, Associação dos Empregados do Comércio de Ventura, Teatro, Filarmônica 25 de Dezembro (fundada em 1907), um cemitério e uma grande capela. A principal renda do distrito era o comércio do carbonado, comercializado diretamente no mercado Europeu. Uma das causas da decadência foi a introdução de um elemento sintético que substituiu o carbonato, isto no final da década de vinte do século passado. A decadência da vila foi acentuada com construção de uma nova estrada asfaltada, cujo traçado fica a cerca de 7km e com a seca de 1932. Hoje, só três famílias moram no distrito, quando na época áurea haviam aproximadamente 8.000 residentes. A partir de Morro do Chapéu, acesso pela BA-052 até a barragem do Angelim (26,7 km); dobrar à direita e percorrer cerca de 2,5km em estrada com cascalho; em seguida dobrar novamente à direita percorrer cerca de 5km em estrada de conservação ruim.

 Sabíamos que o acesso à Vila do Ventura seria uma verdadeira aVentura, mas não imaginávamos que a estrada que liga Angelim à Vila estava tão deteriorada, evidenciado o descaso do poder público com o potencial turístico da região. Foram inúmeros buracos, cancelas, pedregulhos, ladeiras, mais cancelas, crateras, abismos, etc. Após a última parada para abrir mais uma cancela, o Celta rebaixado e turbinado de Dú, ao ter que atravessar a nado um riacho, teve seu interior involuntariamente lavado e enxaguado, deixando seu proprietário inconformado e literalmente soltando ‘água pelas orelhas’.
Mas o esforço valeu a pena: a Vila do Ventura nos transportou a um outro tempo: há um século atrás, quando aquele lugar desértico e em ruínas foi palco de muitos sonhos e conquistas. Era possível visualizar os garimpeiros indo e voltando e as damas francesas desfilando com seus leques a abaná-las do calor tropical... (Não devia ser nada agradável naquele calor usar aqueles longos vestidos com uma dezena de anáguas por baixo...).
Deu calor só de imaginar... Assim, fomos à procura de um local propício a banho num rio próximo. Xobas e Erick pretendiam guiar a turma para um belo e agradável poço que os dois haviam visitado alguns anos atrás, mas acabaram por fazer a turma se perder... Para redenção deles, encontrou-se uma piscina natural, bem perto da Vila, proporcionando um maravilhoso banho. Poderia ter sido ainda mais agradável, não fosse a presença de peixinhos carnívoros, que mais pareciam minitubarões famintos.
Enquanto isso na Vila, outra parte do grupo brigava contra um dos pneus do Celta rebaixado, já durante horas, tentando trocá-lo. O Careca – já careca de experiência – foi quem salvou os pseudomecânicos do sufoco.
Tomados banho e trocado o estepe, batemos um breve papo com a única família presente na vila naquele dia a fim de conhecer detalhes sobre as transformações ocorridas ao longo dos anos naquele lugar. Em seguida, nos congregarmos na Capela de Nossa Senhora do Ventura unindo O Sagrado e O Profano,  em gratidão por mais uma viagem espetacular, até porque não sabemos quando virão oportunidades para outras viagens como essa, devido à distância geográfica que nos separa durante a maior parte do ano.

O singelo ato religioso celebrou a amizade e união desse grupo, a beleza e grandiosidade das riquezas naturais da região. Celebramos também o aprendizado de um divertimento autêntico, repleto de conhecimento. Sem álcool, sem drogas, mas com muito conhecimento, respeito à Natureza, amizade, alegria e principalmente bom humor.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Cachoeira do Agreste e Domingos Lopes (Morro do Chapéu - BA)

Após alguns meses de organização, conversas fiadas, listas, orçamentos, itinerários, bobagens, promiscuidades pelo MSN, e uma série de outras coisas, decidimos que faríamos uma nova viagem por nossa região em busca de novas formas de lazer. Queríamos, assim como em Uma Viagem Muito Louca - Parte I e Parte II, algo que fosse divertido e ao mesmo tempo mesclasse baixo custo e valorização das riquezas locais.
Inicialmente pretendíamos (Edson, Erick e Marcelo) viajar uma semana inteira por parte do que o município de Morro do Chapéu pode proporcionar de diversão, entretenimento e conhecimento, tais como Cachoeira do Agreste, Cachoeira do Ferro Doido, Cachoeira Domingos Lopes, Buraco do Possidônio, Vila Fantasma do Ventura e o Morrão.
O nosso grupo de viagem e desbravadores, conhecido carinhosamente por "Kalangos de Muxila", tinha em mente e coração a vontade e determinação para ir em todos os lugares cogitados inicialmente e em mais alguns se fosse o possível. Contudo, devido há alguns pequenos "probleminhas", tivemos que mudar muito do que tínhamos planejado inicialmente.
Primeiro: nossa InVenenada, depois de supervalorizada pela fama repentina, foi lucrosamente vendida. Para nossa tristeza, ela pertence a outro nesse momento. Segundo: nosso querido amigo Ericson, vulgo Big-Foot, com toda aquela sua cabeça e conhecimento geográfico, por um empecilho empregatício, não pôde ir conosco. Palavras dele na comunidade Os Viajantes: "Confesso que estou muito triste porque, devido à minha condição de escravo proletário, não pude ir à Viagem Muito Louca – Parte III (…) Confesso que estou ansioso para ouvir as loucas histórias dos nossos amigos Viajantes, nessa nova aventura, que certamente dará muita resenha... Enfim, confesso que eles devem estar si divertindo pakas*, e eu não!”. Cá entre nós, confessamos que ficamos com muita pena dele!
*É pakas mesmo, não Pankas.
Depois tivemos outro problema: devido a falta deste que é a nossa "cabeça" em definir para onde e como chegarmos até onde queremos ir, perdemos também a possibilidade de visitar e repousar no CIEG (Centro Integrado de Estudos Geológicos) do Morro do Chapéu. Era também Big-Foot que conhecia o nosso possível guia para os locais que certamente não saberíamos chegar. Por isto, e por outras coisas mais, decidimos adiar a ida para alguns lugares mais distantes.
Como nossos problemas ainda pareciam ser poucos, dias antes da viagem (marcada para os dias 04, 05, 06 e 07 de Janeiro), praticamente mais da metade dos Kalangos caíram lisos. Ser pobre é dureza...
Diante dos empecilhos que surgiram no decorrer dos dias que antecederam a viagem, decidimos em uma reunião conturbada, porém proveitosa, que reduziríamos tudo em nosso novo camping: reduzimos dias, carros (inicialmente seriam três), custos, lugares a serem visitados, e um pouco da comida. Não pudemos reduzir mais comida, porque lembramos que Joca-Tigre ainda iria conosco e, certamente, uma redução acarretaria em uma compra posterior de suprimentos.
Dadas as explicações, vamos às apresentações. Alguns outros membros dos Kalangos não puderam ir. Além de Big-Foot, Languinho e Filhote não estiveram presentes nesta viagem e, no lugar deles, se acrescentaram novos membros e irmãos. O grupo ainda assim se manteve como o “Clube do Bolinha” (sem referência ao gordo do Huelber e do Marcelo, e as barrigas salientes do Idiosmar e Vicentão).
O grupo foi composto por:
  • Clécio (Cynho ou Cisi);
  • Edson (Edinho, Idiosmar ou Xobas);
  • Egnard (Vicente ou Chicó);
  • Fagner (Bugga ou Abelardo);
  • Huelber (Cremosinho, Água Mineral, Tum-Tum, Crispim, Tratorzinho ou Gudão);
  • Joziel (Joca-Tigre, O Dominador ou Joca Jackson);
  • Lucas (Cabeção ou Pirulito);
  • Marcelo Carneiro (Pankas, Boer ou Tony Ramos);
  • Nilson (Negão, O Salvador ou Michael Nilson);
  • Rodriguinho (Digão);
  • Ronaldo Júnior (Narciso ou Pavão);
  • Vinícius (Galego ou Menininho da Mamãe).   
 

    Na manhã da segunda-feira saímos às compras enquanto o nosso novo carro (uma F-1000 emprestada pelo pai de Bugga) ainda não nos estava disponível. Decidimos não levar desta vez os macarrões instantâneos, pois alguns viajantes reclamaram do miojo cru na última viagem... Todos votamos para as refeições de cuscuz, alguma carne para completar a coisa, muitos pães com mortadela, frutas e muito refrigerante quente.
    A saída estava marcada para as 13h00, no entanto, não esperávamos que o carro, ao chegar da fazenda, estivesse tão infestado de fezes bovinas. Devido a este contratempo tivemos que, obviamente, lavar todo o carro. Feito isto e tudo ajeitado, com um atraso de apenas duas horas (estamos evoluindo, da outra vez foram quatro horas e meia) enchemos o tanque e partimos em direção a Cachoeira do Agreste, no conhecido Rio do Jacuípe. Diga-se de passagem, o nosso motorista da vez não foi Pankas, mas sim Gudão ou Tum-Tum, ou Crispim, ou... Aaaahhh... vocês entenderam.
    Enfim, finalmente na estrada. Cabelos ao vento, alegria e o boné de Pirulito no ar (não foi por falta de aviso, mas o moleque é teimoso), satisfação, e uma pesada dose de ansiedade... Chegamos ao rio cerca de uma hora depois, quando percebemos que não estávamos sozinhos: havia um ribeirinho que possui um bar à beira do rio. Após uma pequena reunião percebemos que tínhamos esquecido fósforos. Como ninguém em nosso grupo fuma, percebemos que tínhamos que conhecer o ribeirinho e fazer amizade, e quem sabe depois dar aquele "velho abraço" e perguntar: Me empresta uma caixa de Fósforo?! (Queríamos ter aquele emotion do MSN com um sorriso aberto pra colocar aqui com uma cara bem sínica). Nada feito, o cara tinha inúmeras bebidas, mas fósforo, nem de longe. Felizmente algumas pessoas conhecidas estavam no rio e feita a nossa solicitação, prontamente nos atenderam e nos passando exatos 14 palitos. Estávamos bem, agora nada mais faltava... Achávamos...
    Pouco tempo depois armamos o circo, quer dizer, o acampamento. Todas as barracas armadas, Pankas nervoso com o trabalho que a barraca dele dá pra armar, lenha recolhida para a fogueira e tudo colocado em seu devido lugar. Tomamos um delicioso banho no Poço da Tiririca. Ficamos alí até anoitecer e então preparamos o café. Foi aí que lembramos que tínhamos nos esquecido de levar uma panela. Recorremos mais uma vez ao “tiozinho” do fósforo, e mais uma vez nosso pedido não obteve êxito. Ele não tinha panela.
    Nosso cardápio? Dois pães e um cuscuz para cada um. O grande amigo Joca-Tigre se excedeu um pouco ao comer dois cuscuz, 5 pães e um pedido negado de mais um... Mas isso é o de menos. O bom é que ele se satisfez, mesmo que por apenas 4 ou 5 horas.
    Mais tarde, ao som dos violões e cantoria, Pankas e Negão foram jogar capoeira na areia do rio. Depois de quase tomar uma “voadora” no “pé do ouvido”, Pankas desistiu. Além do mais, o seu peso não o permitia de ousar nos movimentos. Outra coisa que lembramos é que a carne teria que ser salgada, senão ela se perderia. Prontamente, Idiosmar e Negão (agora também Michael Nilson, devido ao seu rosto pálido de tanto protetor solar) salgaram a carne com tempero pronto. No entanto, com tempero demais...

    Dormimos todos tranquilos e no amanhecer do dia comemos às pressas para a primeira trilha de nossa Viagem Muito Louca - Parte III. O plano? Seguir até a última cachoeira, uma caminhada de quase 6 km (ida e volta) sem parar e só depois voltar para comer. Pedimos ao nosso então novo amigo de infância, “O Ribeirinho”, para guardar o nosso carro emprestado enquanto iríamos até a cachoeira. Aí ficamos sabendo que, segundo ele, alí onde dormimos ainda existem onças e muitas, muitas cobras.

    “Caminhando e cantando” fomos todos nósm, "Os Doze", descendo rio abaixo... A cantoria não durou muito, pois devido aos desafinados, conseguimos assanhar um enxame de abelhas, que acabaram por ferroar o Negão, Joca Jackson e Gudão, este último o mais premiado: recebeu o ferrão acima do olho. Os que vinham mais atrás tiveram que passar agachados pelo local, incorporando de fato o espírito de “Kalango”e vencendo assim mais uma “batalha”.
    “Fruto do encontro do Rio Jacuípe com o Rio Preto, a Cachoeira do Agreste brinda a natureza em meio a uma flora diversificada e colorida por bromélias, orquídeas gigantes de cerca de um metro de altura, e exemplares de plantas carnívoras, devoradoras de insetos. A queda d’água tem aproximadamente 50 metros de altura, seguida de uma bacia que se precipita em um canal com poços profundos onde, no passado, se dava a exploração de diamantes. Durante a trilha, de aproximados 3 km, várias praias e pequenas quedas d’água margeiam o rio enfeitado de flores e cores. O acesso à Cachoeira do Agreste fica a 17 quilômetros de Morro do Chapéu, pela BA-426, em trecho asfaltado. A partir daí, são mais 8,5 quilômetros de estrada de terra.”
    Após tomarmos um banho na água gelada, decidimos voltar, afinal, Joca-Tigre e o Galeguinho da Mamãe já reclamavam da fome. Ao passarmos novamente perto das abelhas, concluímos que, se não achássemos outra trilha, teríamos que passar nadando. Neste momento presenciamos uma das atitudes mais emotivas do camping ao descobrirmos que o Michael Nilson não sabia nadar. Segue o pedido:
    Michael Nilson: “Júnior, se tiver que passar nadando, me leva nas costas nego?... Eu não sei nadar!!!”
    Vencido as abelhas, chegamos até o nosso velho e bom amigo ribeirinho. Mas ele já não estava sozinho: seus fiéis clientes estavam o ocupando um pouco (notamos isto ao ver as sete garrafas de cachaça sobre as mesas do quiosque). Mais à frente, nos encontramos com algumas amigas e um amigo (Saara, Saane, Camila, Marla e Abnadabe, e uma advogada que não sabemos o nome, mas que aparentemente estava super afim do Negão...). De imediato fomos surpreendidos com a pergunta de Saara: Vocês trouxeram carne? Também de imediato decidimos ir comer no povoado de Flores, pois se não tínhamos praticamente nada além de 1 kg de linguiça josefina, eles só tinham pão com presunto. Ah! Nos despedimos do “tiozinho” do fósforo também.
    Chegando às Flores, armamos a cozinha no meio da praça, e depois de conseguirmos algumas panelas emprestadas, comemos cuscuz com Josefina. Em seguida, seguimos viagem para o povoado de Fedegosos. Lá percebemos que Gudão tinha certo apreço de algumas “menininhas” do local (contaremos detalhes adiante). Enfim, comprados mais mantimentos (pão, mortadela e refrigerante) para o resto da viagem, seguimos para a Cachoeira Domingos Lopes.
    “A Cachoeira Domingos Lopes, também é formada pelo Rio Jacuípe. Para chegar, são 12,5 quilômetros em estrada de terra a partir da BA-426, até um novo entroncamento para o povoado de Cachoeira, e, daí, mais 1,8 quilômetros e 600 m de trilha. Na nascente, um belíssimo lago é um convite irresistível para banhar-se e curtir a tranqüilidade do local em meio à natureza.”
    Quase chegando ao local, Tum-Tum teve a brilhante idéia de ligarmos para “Seu Valter” e pedir abrigo em sua fazenda “Berlenga”. Lá utilizamos sua cozinha, mas apenas a cozinha, já que não podíamos dormir lá devido a numerosa população de morcegos.
    Lembram da carne que salgamos? Quase 40 horas depois resolvemos comê-la. No entanto, esquecemos de lavá-la. O cardápio seria dois pães e 7 pedaços de carne para cada, contadíssimos. Contudo, a carne estava tipo... Como dizer... Sal puro? O coitado do Cynho dizia não sentir mais o “céu da boca” e cedeu seus últimos três pedaços para Vicentão que, sem pestanejar, perguntou: vocês lavaram a carne com água do mar, foi?

    Comemos e dormimos: estávamos todos mortos de cansaço. Entretanto, Digão, que agora estava dormindo com o Galego e O Dominador na barraca do Dominador devido a problemas técnicos na barraca de Tratorzinho, dialogava em voz baixa com Joca:
    _ Digão, cadê?
    _ O que, Joca?
    _ Ué, tu sabe.
    _ Tá na barraca de Bugga.
    _ Vai lá pegar...
    Cinco minutos depois Digão chega na barraca de Abelardo e faz a solicitação: “Bugga, me dá minha bolsa de merenda aí...” Vale lembrar que Digão tem apenas 12 anos. Nem precisamos dizer que pela manhã o chão que circulava a barraca do Dominador estava cheia de papéis e plásticos de biscoitos recheados.
    P.S.: Sempre recolhemos o lixo e trazemos de volta!
    Por volta de meia noite, quando todos dormiam, Bugga acordou desesperado, ofegante e morrendo de sede, tentando acordar qualquer indivíduo para fazer uma pequena caridade e lhe arrumasse um pouco de água pra continuar a dormir tranquilamente. Porém, ao sair da barraca, encontrou apenas Chicó acordado e lhe perguntou: Vicente, tu tem um pouco de água aí bixo?! Júnior replicou que não, e desesperadamente Bugga se virou para a barraca de Idiosmar perguntando o mesmo. Xobas não tinha água, mas sabia onde tinha: “Na torneira da pia atrás da casa!” Bugga, maluco, partiu para torneira (segundo ele se cuspisse, só sairia SAL), e num momento de loucura colocou a boca na torneira bebendo nada menos que mais de 1,5 litros de água sem parar. A caixa estava quase seca e por isto aquela velha sujeira e besouros vieram junto com a água. Mas com sede, com sede ele não ficou.
    Pela manhã Gudas e Cynho ficaram responsáveis por nossa alimentação, que seria macarrão na sacola ao molho com mortadela, e é claro, um suco feito carinhosamente por Narciso que o escondeu por uns instantes em seu cobertor, sendo depois surrupiado por Pirulito e Negão de forma viril.
    Bem alimentados, seguimos para a Cachoeira Domingos Lopes, onde pegamos a pior trilha possível (queríamos aventura... Ideia de Michael Nilson). Mais adiante, vimos Digão “puto da vida” com as ideias de Michael (Este Nilson é cheio de coisa, viu?!).
    Passamos o dia inteiro por ali, e depois de Pirulito dar milhões de dores de cabeça pra seu irmão Xobas (diga-se de passagem, Pirulito só quer ficar e fazer as coisas mais perigosas que podem ser feitas), chegamos à última parada de nossa viagem: O Poço Azul, que neste dia estava preto devido a chuva.
    Lá achamos estranho Cremosinho de uma hora para outra começar a se produzir: O homem passou xampu, sabonete, hidratante corporal, fez a barba, botou perfume e mais um monte de outros adereços. Indagado sobre o porquê de tudo aquilo, prontamente ele pediu para darmos 5 minutos a ele para uma “cantadinha” na menina do Fedegosos. Decidimos em assembléia que ele teria 5 minutos para “queixá-la”. Se a beijasse, ganharia mais 15 ou 20 minutos.
    No entanto, chegando ao povoado de Fedegosos, ficamos surpresos por que ele só conversou dois míseros minutos, deu um beijo na testa, deu as costas pra guria e foi embora. Xobas de imediato falou: “Se era pra fazer isto, tinha feito comigo moço, assim a gente chegava mais cedo e não tinha parado”.
    E assim viemos pra casa, chegando com segurança na quarta por volta das 18h00, finalizando esta que foi uma viagem espetacular. De maneira geral, essa viagem foi extremamente proveitosa, não só por termos conhecido lugares interessantes – e tão próximos de nós – que há muito pretendíamos conhecer, como também pela construção de novas amizades e fortalecimento das velhas. Deixou em todos os que foram um gosto extremamente adocicado de quero mais, aguardando ansiosamente outra oportunidade de mais uma aventura barata e reconhecidamente valiosa em termos de conhecimento e diversão.

    quinta-feira, 30 de julho de 2009

    Toca dos Ossos e Poço Verde (Ourolândia - BA)

    Após alguns meses de organização, conversas, listas, orçamentos, itinerários, bobagens, promiscuidades pelo MSN, e uma série de outras coisas, decidimos que faríamos uma viagem por nossa região à busca de novas formas de lazer. Algo que fosse divertido e ao mesmo tempo mesclasse baixo custo e valorização das riquezas locais.
    Semana passada, publicamos o relato da primeira parte desta aventura: uma visita ao Parque Estadual Sete Passagem, em Miguel Calmon/BA. Neste parque existem nascentes dos rios Paraguaçu e Itapicuru, formando 14 lindas cachoeiras em área serrana e de vegetação extremamente diversificada. Sua fauna e flora possuem inúmeros exemplares endêmicos e em extinção. Vale à pena conferir, não só pela sua importância ecológica, mas, sobretudo pela sua beleza paisagística.
    Na segunda etapa, visitamos a Toca dos Ossos e o Poço Verde, ambos em Ourolândia. A Toca dos Ossos é uma caverna com padrão labiríntico espongiforme, com possíveis 15 quilômetros de extensão, um dos sítios mais fossilíferos do Brasil, onde foram encontrados inúmeros fósseis de mega-mamíferos pleistocênicos. O Poço Verde é um afloramento do lençol freático, possivelmente uma dolina, típica de relevo cárstico (traduzindo: o teto/solo caiu porque a água dissolveu o calcário). A cor esverdeada/azulada deve-se ao cálcio e magnésio dissolvidos na água.
    O “Clube do Bolinha” sofreu algumas substituições, ficando com a seguinte escalação:
    • Edson D’Angelo (Edinho ou Idiosmar)
    • Egnard Júnior (Vicente ou Chicó)
    • Ericson (Erick ou Big-Foot)
    • Huelber Figueredo (Gudão, Água Mineral ou Cremosinho)
    • Joziel (Joca-Tigre)
    • Marcelo Carneiro (Pankas, Boer, ou Tony Ramos)
    E no segundo dia somaram-se:
    • Nilson Bonfim (Negão, O Salvador)
    • Lucas D’Angelo (Cabeção)
    • Marcelo Magno (Filhote ou Felê)


    Novamente nos atrasamos devido a alguns novos probleminhas com a InVenenada. E desta vez não teríamos Negão, O Salvador, para nos socorrer na distribuição de peso ou nos “cavalos” a mais de potência.
    Logo que saímos de Várzea Nova, percebemos que algum instrumento estava arando a terra num período não muito propício ao plantio. O escapamento insistira em acariciar o chão, e não tivemos outra opção senão bater perna cerca de 500 metros em busca de um pedaço de araminho que fosse para amarrar o tal escapamento. Felizmente o amigo Joca-Tigre leva jeito em recolher um arame ou outro de uma cerca alheia. Além do mais, um inusitado habitante dos sertões queria nos ajudar: um jumento. Depois de amarrado o teimoso (o escapamento, não o jumento), seguimos viagem, só parando numa rocinha para pegar umas espigas de milho emprestadas... (Pretendemos pagá-las na próxima viagem, hehehe).
    Imponentemente, seguimos viagem em direção a Ourolândia. Pensávamos que só pararíamos em nosso destino. Pensávamos...
    Passamos pelo Povoado de Tabua, comunidade que possui uma extensa área de água, sendo praticamente cortado pelo Rio Vereda da Tabua, apresentando em suas margens plantações de hortaliças, além de utilizar essa água como forma de subsistência. Como já esperado e sabido, o Povoado de Tabua possui potencialidades ainda não exploradas por seus habitantes, tanto na agricultura, quanto na pecuária e na piscicultura, fontes de renda estas já exploradas por nossos ilustres vizinhos.
    Na saída da Tabua, nos deparamos com um novo, porém pequeno problema com a InVenenada. De repente, curtindo um som (dos celulares, não da InVenenada, é claro), ouvimos um ruído estranho que partia de nosso magnífico veículo. Paramos, descemos, olhamos, todos ao chão. O que encontramos?... Nada! Decidimos então fazer uma série de testes. Primeiro apenas empurramos o carro para frente (muito comum nesta viagem, diga-se de passagem), mas o ruído continuava. Decidimos testar os freios... Nada! Verificamos a embreagem... Nada também! Tentamos com a caixa de marcha... Mais uma vez... Nada! O que fazer?!? Ó dúvida cruel. De repente, um Insight. Por que não empurrar para trás? Foi o que fizemos. Para nossa surpresa e total alegria (e preocupação), depois de um forte barulho, que foi seguido de um estrondo nada agradável, foi ao chão o causador de nossos problemas... “A Peça”.
    O carro havia se regenerado, voltara a ser o que era antes, estava novo... (acho que exageramos...). Enfim, o ruído havia sumido, nossos problemas estavam resolvidos. Mas uma dúvida nos perturbava a mente: de onde havia surgido “A Peça”? Procuramos, procuramos, e depois de longos e intermináveis 3 minutos, decidimos que não procuraríamos mais. Se a  InVenenada estava andando, tudo estava “azul”. Não “contamos” conversa, colocamos “A Peça” no bolso e, de forma viril, seguimos viagem.
    Chegamos a Ourolândia com estilo: óculos escuros, braço pra fora do carro (na verdade, pra porta não abrir) e uma bagagem em cima do possante nada discreta, que nos fazia parecer vendedores ambulantes, daqueles que saem de porta em porta oferecendo alguma bugiganga. Até poderíamos ter passado despercebidos, não fosse o fato de que em todo quebra-mola, a InVenenada transformava-se numa gangorra.
    Doidos pra chegar ao nosso destino subterrâneo, pedimos informação (num posto de gasolina, pra variar) e seguimos adiante. Por uma leve distração, passamos do ponto, tendo que pegar informação com a quase inexistente população naquela árida caatinga. Felizmente, encontramos um cambaleante ciclista, que por sua voz carregada e traje maltrapilho, fez-nos suspeitar da sua sobriedade.
    - A toca? Que sabê mermo? Vá, vá... Chegano nas peda, pode entrá qué lá!
    Depois de receber valiosa e precisa informação, seguimos olhando pelo retrovisor do qual avistamos o ébrio rapaz se espatifar no chão, que, indiferente às altas temperaturas daquele rubro solo, caiu em sono profundo...
    Depois de uma pequena discussão sobre nosso cardápio, almoçamos à beira da Toca dos Ossos: pão, mortadela e coca-cola quente – por pouco não houve disputa ‘no braço’ pelo nutritivo alimento.  Bem alimentados e prontos para uma nova aventura, seguimos toca adentro.
    Felizmente, entrar na toca é tão assustador quanto empolgante, sobretudo por saber que ali está um dos sítios paleontológicos mais importantes do Brasil, onde foram encontrados inúmeros fósseis de mega-mamíferos extintos do pleistoceno (“Era do Gelo”), como por exemplo, preguiças e tatus gigantes. A Toca dos Ossos merece esse nome por ser uma das cavernas mais fossilíferas do país.
    Para azar dos visitantes, os transeuntes da estrada ao lado têm a coragem de se agacharem na entrada escura da toca e liberarem seus filhotes fecais... Vencidos tais odores, o mau cheiro seguinte era dos morcegos (das fezes, urina, deles mesmos). Aliado a isso, a temperatura no subsolo era muito elevada, lavando a alguns de nós, menos preparados, a transpirar e ter leve falta de ar.
    Satisfeitas a curiosidade e o desejo por altos flashes, depois de perambular subterraneamente por uns 150 metros, saímos rapidamente da toca antes que perturbássemos os donos do pedaço: uma manada de morcegos que torcíamos para não serem hematófagos...
    Saindo da Toca dos Ossos e dando adeus aos assustadores quirópteros, passamos em Ourolândia para comprar 33 pães, 600 gramas de mortadela e 6 coca-colas, pechinchando até vencermos a vendedora no cansaço. De lá, seguimos para o Poço Verde, onde acampamos.
    Tomamos banho dentro do poço, os seis, quando já estava escuro (não seria nada agradável se fossemos flagrados nessa cena torpe), sob luzes de lanternas, e obviamente (por questões ecológicas), sem usar sabonete. Como ficamos limpos sem sabonete? Ficamos dentro d’água até nos sentirmos como tal, ou com os dedos engelhados.
    À tardezinha chegaram Negão, Cabeção e Filhote (“- Peitiiinhooo!”).. Fizemos uma fogueira em volta da qual passamos a noite cantando ao som do violão (e uns jogando xadrez (coisa de intelectual), outros discutindo astronomia, outros contando piadas...). Comemos o cuscuz de Edinho, recheado com exatas 12 rodelas de salsicha pra cada (muita gente gostou tanto que quis repetir). Depois, partilhamos umas espigas de milho assado, que, não sei por que, pareciam bem mais saborosas...
    Todos pretendiam acordar com as galinhas, já que no dia seguinte Negão teria que voltar cedo para trabalhar e o Cabeção para estudar (estudar??). No entanto, a todo momento alguém –especialmente o Negão – lembrava de algum causo sem graça ou alguma piada infame pra contar, afugentando nosso sono até a madrugada...
    Acordamos com o sol para aproveitarmos ao máximo o Poço Verde, pois corria o risco de ter muitos visitantes, já que era feriado municipal. Independente dessa preocupação, fomos acordados, um a um, por uma perturbadora melodia. O Negão pegou o violão e saiu, de barraca em barraca, tocando uma irritante composição, mudando de tom pra variar a tortura auditiva. Depois do desjejum (pão, mortadela e poupa de fruta desidratada – kissuki), fomos contemplar a beleza cênica do Poço Verde.
    Brigávamos para ter a vez nessa ou naquela pedra, nessa ou naquela posição. A beleza cênica do local é surpreendente. Infelizmente, pessoas irresponsáveis deixaram ali muito lixo (embalagens plásticas, pedaços de roupas, copos descartáveis, garrafas quebradas e até preservativos!), mas ainda assim, um gostoso banho foi possível. Apreciamos a água fresca por um bom tempo, mas com certo medo de escorregarmos pro fundo, mesmo todos sabendo nadar como peixes, pois, reza a lenda, nunca fora achado o fundo desse poço...
    Chegando o horário limite, Negão e Cabeção tiveram que partir, levando Gudão (que sabe-se lá por quê, amarelou) e deixando Filhote (“- Peitiiinhooo!”). Tiramos mais algumas fotos no Poço Verde e por volta das 10:30h saímos na tentativa de ver um local conhecido como Pingadeira, que esperávamos que não fosse um boteco a conta-gotas...
    De imediato, para nossa revolta, descobrimos que a gruta da Pingadeira localiza-se ao lado da Toca dos Ossos, onde estivemos no dia anterior.  Caminhamos cerca de 1,5 km da estrada principal até o local, atravessando propriedade particular. Precisaríamos atravessar o rio para ter acesso ao paredão onde se localiza o objeto de nossa curiosidade. Para não correr o risco de todos se lamearem inutilmente, foi escolhido dedocraticamente o geógrafo do grupo para fazer a sondagem. Esse concluiu que não valeria à pena a travessia (sob o risco de se lamear e/ou ser devorado por jacarés do Rio Salitre... “Mentirinha”).
    A pingadeira é uma pequena gruta com infiltrações no teto, que justifica seu nome. Dentro da gruta, o nível d’água era de cerca de um metro e, apesar de ter água cristalina e muitos peixinhos coloridos, havia muito lixo disperso, inviabilizando um banho aprazível. Aproveitamos o ensejo para protestarmos contra esses banhistas inconseqüentes e irracionais: lugar de lixo é no lixo!
    Saindo da Pingadeira, passamos num local de extração de mármore (Mineração Travertino). Como muitos de nós nunca tínhamos visto uma marmoraria, não deu outra, senão mais uma pausa para inúmeros flashes. Nessa mesma área, vimos muitos sumidouros, outra formação típica de área cárstica. Depois rumamos à Tabua no intuito de, de lá, irmos para a Fazenda Arrecife, importante Sítio Geológico/Paleontológico visitado constantemente por Universidades de todo o Nordeste, como também de várias partes do Brasil (UFOP, UFRN, UFBA, UNEB, UFES, dentre outras), onde almoçaríamos.
    Estávamos doidos para chegarmos aos estromatólitos da Fazenda Arrecife, mas, chegando ao centro da Tabua, inventamos de mendigar água pelas casas com garrafas PET de refri na mão. Se não tivéssemos desligado nosso super-motor, certamente teríamos almoçado na nossa ultima e mais importante parada turística.
    Por motivos não identificados, a InVenenada não ligava mais. Nem empurrando ladeira abaixo, nem empurrando ladeira acima. Apenas expelia um cheiro forte de propano, butano e metano misturados. (Mas o GLP não só tem butano e propano?? Sim, correto. Nesse caso, o metano era expelido naturalmente de nossos escapamentos pessoais toda vez que fazíamos algum esforço físico demasiado...)
    Exaustos de empurrar o possante, arriamos na praça principal da Tabua, naturalmente, chamando a atenção dos residentes. Felizmente, logo apareceram dois prestativos tabuenses que, pra nossa sorte, entendiam de ‘gás’. O problema?? O gás saia do botijão, mas não chegava ao motor. Metade vazava no primeiro registro, a outra metade no segundo... Pra complicar ainda mais, o cabo da vela insistia em escapulir.
    Depois de uma hora de pendenga, exaustos de cansaço e de fome, partimos pra brutalidade e puxamos a faca para uma solução aparentemente improvável: havaianas, todo mundo usa! Idiosmar habilitou-se prontamente a ceder seu solado. Metemos a faca no chinelo e resolvemos mais um dilema: vedamos um dos ditos registros. O outro? Resolvemos com uma tira de liga que prendia a bateria ao carro...
    Conseguimos (com borracha de sandália, pedaço de borracha de câmera de ar e alguns empurrões) fazer a InVenenada dar fogo. Mas havia um importante detalhe: se o fogo apagasse, teríamos que fazer todo o processo de reconstrução da vedação do registro novamente.
    Seguimos adiante, torcendo pra bicha não perder o tesão, digo, o fogo. E tristes por ter abandonado nosso último e mais importante destino por conta das circunstancias adversas.
    Lá pras 15:30h avistamos o Estádio Municipal, quando vibramos por mais uma vitória, finalmente estávamos em casa. Já que estávamos com fome, seguimos para casa de Idiosmar onde preparamos mais um maravilhoso almoço (feijoada enlatada, arroz refogado feito por Marcelo e ovo cozido por Erick e Edinho).
    Depois de um longo período de espera, quando todos já riam sem saber nem de que ou muito menos o porquê (o que a fome nos faz...), o arroz ficou pronto, sentamos todos à mesa, agradecemos por tão preciosa e deliciosa refeição, e, ao som de muitas conversas e histórias a respeito de nossa incrível viagem, começamos a preparar a próxima viagem que, cá entre nós, provavelmente não superará a primeira, mas certamente ficará registrada também como magnífica.
    De maneira geral, essa viagem foi extremamente proveitosa, não só por termos conhecido lugares interessantes – e tão próximos de nós – que há muito pretendíamos conhecer, como também pela construção de novas amizades e fortalecimento das velhas. Deixando em todos os que foram um gosto extremamente adocicado de quero mais, aguardando ansiosamente outra oportunidade de mais uma aventura barata e reconhecidamente valiosa em termos de conhecimento e diversão.
    Fica aqui a lição de que para ser turista e se divertir em lugares magníficos e paradisíacos não precisamos ir tão longe e muito menos ter muito dinheiro. Por fim, uma recomendação: não vá de Caravan velha!



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